quarta-feira, 30 de maio de 2012

Um efêmero

Minha apatia é surpreendente.
Tanto quanto são os meus extremos.
Menina solo, feita de polos.
Sempre comigo as teorias do momento.
Momento... espaço relativo, indeterminado.
Coisa própria, irreversível, curável.
Coisa passada, um instante, um efêmero.
É um pequeníssimo chamado de defesa.
É possibilidade de certeza.
Momento é você. A vida é feita disso.
Nada mais que a ida.
Meu conformismo me ataca.
Fico opaca.
Lanço mão de mil temores, fico em vão.
Um não e cá estou.
No chão.

Roberta Galdino





terça-feira, 29 de maio de 2012

o céu empoeirado de estrelas

"Deitada na grama, o céu empoeirado de estrelas. Passei o dedo e - curioso - algumas vieram grudadas na ponta. Olhei para cima e assoprei. Foi tanta estrela caindo que agora eu mal consigo enxergar de tanta esperança." 

Rita Apoena


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Escrevo para fazer ver.

"Escrever é minha grande alegria! Já me sugeriram escrever um romance. Não escreverei. Romance é coisa complicada, estória com princípio, meio e fim. Não tenho competência, não tenho paciência, não tenho tempo. Já tenho 71 anos. É preciso escrever curto porque a arte é longa e a vida é breve. Vejo o que quero que os outros vejam comigo. Por isso escrevo. Faço fotografias com palavras. Diferentes dos filmes que exigem tempo para serem vistos, as fotografias são instantâneas. Minhas crônicas são fotografias. Escrevo para fazer ver. O que escrevo são aperitivos. Na literatura, frequentemente, o curto é muito maior que o comprido. Há poemas que contém um universo." 

Rubem Alves


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Esse instante é o que vale.

Como é que alguém consegue viver assim? Como se vive à espera da morte? Espera a morte como quem espera a entrega de uma pizza. Isso é viver amargamente. Como pode viver com o coração mais podre do que a chama de um cigarro? Às vezes sinto que cansei de dizer: “isso não pode...” Esperar pela morte é render-se àquilo que de mais certo temos e que ao mesmo tempo é a maior incerteza da vida humana. Todo esse ódio e insatisfação que muitos têm com sua vida me são inconcebíveis. E o pior de tudo é que isso enlouquece. E quando perceberes, tua loucura será irreversível, e a demanda do que há para ser concertado será tão imensa quanto a coragem que você não terá. E não fará mais nada, definhará. E assim a morte pode, realmente, estar mais perto. Viva guria. Mate o passado, assim como tu tanto luta destruindo teu presente. Apague essa lamúria. Respeite a vida, perceba que ela só caminha na sua forma, ao seu modo. Não adianta tentar mudar essa ordem, da mesma forma que não adianta tentar se redimir com o que já passou. Aquilo é a morte. Passou, morreu. Morte não é o que vem, morte é o que fica. É o que acaba. É o que passa. E não adianta morrer de raiva do que aconteceu. Não adianta aprender a procurar ajuda... isso não vai mudar mais nada. Esse instante é o que vale. A vida não se mede por passado, presente e futuro, a vida se mede por vontade, por memória. A vida se mede por esquecimentos. A paz vem de dentro pra fora, e não o oposto.

Roberta Galdino




sábado, 19 de maio de 2012

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…


"Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…" 

Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) - O Guardador de Rebanhos.


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